"Manuel Bandeira chegou pra mim um dia, quando eu e meus personagens éramos odiados, e disse:' Nelson, por que você não faz uma peça em que os personagens sejam assim como todo mundo?' Eu respondi da forma mais singela: 'Mas meu caro Bandeira, meus personagens são como todo mundo.' Porque uma coisa é verdade: quem metia ou mete o pau no meu teatro está procedendo como um Narciso às avessas, cuspindo na própria imagem." (Nelson Rodrigues). .
Nelson mostrou seus personagens em seu íntimo, às vezes no limite da loucura. Ele nos igualava a todos os personagens, que iam da máscara à uma sinceridade "insana", conforme a situação a que eram testados.
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"... os realmente virtuosos, gente honesta pra burro, esses é que gostavam das minhas peças. Falavam comigo, adoravam o texto... Mas as depravadas tinham um santo horror. Isso eu aprendi com o meu teatro." (N.R.).
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Retratou a vida como ela era. Fez com que a sociedade moralista, principalmente a classe média e alta, se visse sem roupas diante de todos os leitores, espectadores e de si mesmos. Tirava a grossa maquiagem e mostrava seus rostos iguais aos rostos de todo mundo, em seus desejos e intimidades. E ainda ía mais a fundo. Ia para o inconsciente coletivo. Por ser coletiva essa demonstração do inconsciente, despertava a ira dos mais pervertidos, dos mais "santos" ao se verem nus, desprotegidos dos milhões de olhos do mundo...
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"E, quase sempre, o homem nasce, vive e morre sem ter contemplado jamais o seu rosto verdadeiro, e sem ter jamais conhecido seu nome eterno.". (N.R.).
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Segundo Nelson, amor nada tem a ver com felicidade. Quem estudar sobre ele lerá um trecho em que diz que o seu sonho, desde pequenininho, era ter um único amor a vida inteira e ser fiel a esse amor, mesmo após a morte. Ele dizia que se a(o) viúva(o) casava de novo, é porque não tinha amado realmente. Esse era o tema da vida e das peças de Nelson. O amor!
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."A educação sexual deveria ser ensinada por veterinários. O homem precisa aprender a amar"..
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Frases desse tipo estão presentes em vários depoimentos do Nelson. Ele falou do amor, que o homem só deveria beijar na boca uma única mulher a vida inteira, que se não conheceu seu verdadeiro amor, não deveria beijar. E seus personagens eram punidos pela falta de sentimentos mais "nobres". Ele não os perdoava. A violência estava quase sempre presente em seus desfechos. Eles se uniam por baixas motivações como ciúmes, possessividade, sexo, inveja... Sempre de uma maneira obsessiva. Por mais que tentassem ou apresentassem, de início, indícios de bons sentimentos, em algum momento, o que havia de verdade, construído dentro deles, surgia aniquilando qualquer vestígio de boas intenções. E isso os levava a um fim trágico, já que não controlavam a si mesmos, muito menos a sua sorte.
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Uma cena ótima de "Bonitinha, mas Ordinária":
Trecho do filme com José Wilker, Carlos Kroeber e Sônia Oiticica.
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"Você é um ex-contínuo, põe isso na sua cabeça!"
.Além dessa capacidade de nos mostrar a realidade tão mórbida como é, ele era um poeta. Ele escrevia seus textos com tamanha poesia que, justamente por isso, quando essa realidade chega, produz um choque. Seria ele um pessimista?
Pessimista, principalmente, quanto às boas intenções de seus personagens. Mas não parava por aí...
Estava sempre dizendo que gostaria de ter sido fiel e que se não foi, o defeito era dele. Vivia saudosista pela Belle èpoque. Se existiu uma época boa, não era a dele. Se a mulher era pura, então era fria. A adúltera ainda era mais pura, porque estava livre do desejo que apodrecia nela (sempre havia o desejo oculto, a insatisfação... E quando buscavam seus desejos de uma forma aberta e limpa, terminavam em tragédia), porém, em suas crônicas, ele destacava e percebia a humanidade em alguém, quando todos (a unanimidade da época) viam apenas um rótulo.
Eu também não estou aqui para rotulá-lo, nem seria possível. Mas ninguém está acima do bem e do mal, nem mesmo ele. Muitos vão dizer: Ele era realista. Tá, mas Nelson realista via e conduzia seus personagens através de uma ótica mais pessimista ou mais otimista em relação a humanidade. Os personagens, por mais que tentassem se salvar, manter uma linha nobre de sentimentos, digamos assim, são levados contra si mesmos e por si mesmos, por suas baixas motivações de vida, a seus destinos trágicos. Eles possuem um deus bastante severo, que não os perdoa. Por outro lado, por mais sombria ou “baixa” que fosse sua personagem, Nelson sempre buscava nela uma humanidade, algo que a tornasse como todos nós. (Como nos "personagens" citados em suas crônicas). Ninguém era ruim o bastante nem bom demais. O canalha rodrigueano é belo justamente porque é humano. Claro, não é literalmente da vida como ela é, esse canalha. À sua humanidade é acrescentada uma malandragem bem colorida. Mas vemos nele e em todos os outros uma inegável humanidade. Portanto, concluo que Nelson tinha uma ótica otimista da humanidade. Digo Nelson. Mas o personagem Nelson, o escritor, possuía ua ótica bastante pessimista. A poesia de NELSON servia como pano de fundo para o "desagradável" MUNDO RODRIGUEANO. Agora, que ambos são realistas, não resta a menor dúvida.
10 comentários:
Nunca "li" Nelson Rodrigues, o que conheço são as citações e o filme do Jabour: Toda Nudez será castigada, eu sei que são apenas prévias da genialidade dele, o que é importa é que ninguém foi tão mais a vida como ela é quanto ele foi...
Nelson é gênio! Contém tudo aquilo que apenas os gênios sabem ter: cru, cáustico, irônico, direto. Dá uma tapa da cara do leitor e espectador. Mostra a quem o assiste ou lê quem se é de verdade. Impressionante!
Adorei o blog! Parabéns!
já adicionei como link recomendado no meu.
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Sempre estarei por aqui, pois adoro Nelson Rodrigues!
Abraços
Geórgia, eu me apaixonei pelo seu blog. Um presente não somente para os fãs do Nelson (como eu), mas para aqueles que desconhecem sua genialidade e humor ácido. Parabéns!
Meyviu, leia... dizem que não há nada melhor, pra conhecê-lo bem, do que ler "O anjo pornográfico", a biografia escrita por Ruy Castro.
Hanna, é isso mesmo. Ele diz, pra quem quer e quem não quer ouvir: "Tu és isto!".
Brown e Lianara, muitíssimo obrigada!
Rô, fico lisongeada com sua opinião. Aliás, vc é a Rô que conheço? Da comu? Bjs!
Geórgia, se está se referindo à comunidade do Nelson, não. Eu não sou a Rô que você conhece. Meu nome é Romyna. Mas modero outras três comunidades, porém, de música: Tom Jobim, Chico Buarque de Hollanda e Edu Lobo Lado B. Na do Chico, onde a política é tema forte, impossível não citar o Nelson Rodrigues, às vezes. E ele tem uma frase sensacional, que me fez gostar da única música do Chico que não apreciava: "Com A Banda, as pessoas voltaram a assoviar nas ruas". Agora, adoro assoviar A Banda.
Beijos!
Eu tenho verdadeira tara e fascínio por Nelson.
Só não entendo pq está a tanto tempo sem postar.
Aqui é ótimo
Beijos
Alice
Oi!
Muito obrigada :D
Estou a passar esse texto para uma peça de teatro. É sempre bom ver diferentes interpretações.
Fica bem =)
Qual texto vc quer passar pra peça de teatro? O "Uma Senhora Honesta"? Me fala isso, eu tenho pedido pra várias pessoas fazerem isso pra mim, passá-lo pra teatro e ninguém fez.
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